No país da Copa, aplicativos de encontro são utilizados muito mais em busca de relacionamentos sérios do que de sexo

O dia é dos namorados, mas, na Copa, a festa pode ser dos solteiros: em 2014, no Brasil, o aplicativo de encontros amorosos Tinder registrou um aumento de 50% de downloads e de utilização no país assim que a bola rolou. O mesmo pode acontecer na Rússia, este mês, já que buscar parceiros online é algo popular no país do Mundial. Em 2016, Moscou foi a quinta cidade onde o aplicativo foi mais usado, na frente do Rio (sétimo), que recebeu na ocasião os Jogos Olímpicos.

Só que o torcedor (ou torcedora) que quiser dar “match” com as russas (ou russos), pode viver mais um choque cultural: por aqui, a minoria usa o Tinder para encontros casuais, histórias de uma noite e nada mais. Dar um like vira coisa séria, já que o programa é utilizado, quase sempre, por pessoas à procura de relacionamento duradouros.

— Algumas meninas que eu conheço buscam ali relações sérias, de verdade. Minha melhor amiga vive com um cara que conheceu pelo aplicativo, e outra colega está saindo há um tempo bom com um menino do Tinder. Dá certo — conta Daria Nikitina, de 31 anos, usuária do aplicativo não só na Rússia, mas nos países pelos quais viaja: — A maioria dos estrangeiros com quem eu converso só querem uma ficada de uma noite. Os elimino imediatamente.

Daria fala inglês, espanhol e já viajou para muitos continentes. Diferente do perfil majoritário da jovem mulher russa, tem e gosta de ter contato com estrangeiros, mas conta que suas amigas, que também buscam relacionamentos mais sérios nos aplicativos, nem chegam a curtir a fotos de homens de fora do país.

— Mas não tem nada mais triste do que o Tinder de Moscou. Os homens daqui são mal criados, preguiçosos na hora de tomar a iniciativa — reclama Daria.

No perfil, buquê, emoticons de noiva e aliança

Apesar do descontentamento de Daria, muitas russas seguem esperançosas em encontrar o amor da vida com ajuda da tecnologia. A maioria dos perfis femininos, em russo ou inglês, ressaltam que buscam namoro. Outros, dispensam os que querem as “saídas de uma noite”. Mais assertivos, alguns esclarecem que a procura é por matrimônio, com figuras e emoticons de noivas, igrejas e outras referências.

Katie, 32 anos, deixa tudo às claras: na foto de perfil, um buquê. Na descrição, uma aliança, e uma sequência de características desejadas: “Seletivo, nobre, responsável, humilde”, além de uma poética qualidade: “Para sempre”. No fim, o e-mail para os pretendentes aptos. A reportagem tentou contato e, assim como os que só querem relações casuais, não obteve sucesso.

O turista que não quiser nada sério na Copa tem alternativas. Parte das jovens russas (e dos russos) que usam o aplicativo têm bastante interesse em praticar outras línguas (destaque para o inglês e o espanhol) e em mostrar as atrações turísticas da cidade. E sim, oferecem isso pelo Tinder.

Há centenas de histórias de estrangeiros que não entenderam que o convite não envolvia beijo ao fim de uma visita ao Kremlin ou uma ida ao hotel após conhecer um museu. Vale o escrito: se a moça ou o moço diz que só quer praticar inglês, é apenas isso mesmo.

Pure: foco no casual

Na Rússia, a maioria dos que querem encontros casuais migrou para o Pure. Trata-se de uma rede social que ficou popular na Rússia, não tanto como o Tinder ou outros aplicativos de paquera, mas que é mais direto, usado para sexo rápido e sem compromisso. “É um lugar onde adultos encontram aventuras divertidas”, diz a página oficial.

No Brasil, apesar de existir a interface em português, nenhum perfil aparece disponível ao conectar. “Esta é uma cidade-fantasma” diz a tela, quando o usuário está no Rio. Em Moscou, sempre há alguém disponível.

Contudo, os relatos de golpes no Pure são vários. De pessoas que se encontram com outras e cobram por sexo até perfis falsos. O aplicativo afirma que tenta coibir ao máximo, e sempre sabe onde seus clientes estão.

No Tinder, os relatos são menos frequentes, mas especificamente em São Petersburgo, a mais turística das onze cidades-sede, há um golpe conhecido. A armação envolve encontros marcados em bares da região.

Dois golpes seguidos

Um inglês chamado Dave, que prefere não revelar o sobrenome, caiu no golpe do Tinder duas vezes na mesma noite. Em 2017, marcou um encontro em São Petesburgo com uma garota que conheceu no app horas após o match.

Ela o levou para um bar na principal avenida da cidade, que estava vazio, e quis pedir uma garrafa de vinho que custava o equivalente a cerca de R$600. Diante da recusa, pediu um coquetel, que ele não viu o preço. Ao fim da bebida, a moça o chamou para ir embora e, na conta, o coquetel também custava R$ 600. Acuado pelos seguranças, teve que pagar. Ao sair do bar, a mulher, muito atrativa, segundo Dave, foi embora.

Encerrado o ocorrido, ele voltou ao Tinder minutos depois. Logo conseguiu mais uma combinação, e foi ao encontro de outra garota naquele mesmo sábado. Dessa vez, após roteiro semelhante, o prejuízo chegou a R$ 7.500.

— E ainda cometi o erro de sair com cartões de crédito. Me dei mal — lembra.

Procurado, o Tinder Rússia não quis comentar o tema.