‘Monopólio da Taurus’: polícias e grupos pró-armas querem que Bolsonaro abra mercado

Desde setembro, quando ficou evidente a força da então candidatura à Presidência de Jair Bolsonaro, as ações da empresa Taurus Armas passam por uma montanha russa de altas e baixas na Bolsa de Valores.

Como controladora de grande parte do mercado de armas de fogo no Brasil, a expectativa é que a empresa se beneficie da facilitação do acesso à posse estabelecida em decreto presidencial da semana passada.

Essa flexibilização, porém, é apenas a primeira medida aguardada por grupos favoráveis ao maior armamento da população. Outra grande mudança que o governo pode realizar sem depender do Congresso é derrubar decretos e portarias do Ministério da Defesa e do Exército que restringem as importações de pistolas, revólveres, munições e outros itens controlados, assim como dificultam a instalação de novas empresas no país. A expectativa dessa abertura, que traria concorrência inédita à Taurus, ajuda a explicar a volatilidade dos papéis.

“Ninguém compra arma, não, que a gente vai, num decretão lá, já que é decreto, a gente vai acabar com o monopólio, tá ok?”, prometeu Bolsonaro a um grupo de apoiadores, mostra um vídeo que passou a circular nas redes socias após sua eleição. Na sequência, ele diz também que vai zerar impostos sobre armas.

A restrição à importação tem como justificativa proteger um setor “estratégico” para a soberania nacional, mas polícias questionam esse argumento e reclamam dos altos preços e da baixa qualidade dos produtos nacionais que são obrigados a adquirir.

Uma das vozes mais ouvidas contra a Taurus na família do presidente é o filho Eduardo Bolsonaro, polícia federal licenciado e deputado federal (PSL-SP). Há dois anos, em frente ao stand da empresa na feira de armas SHOT Show, em Las Vegas, nos Estados Unidos, ele gravou um vídeo destacando a “decadência notória (da Taurus) no mundo inteiro”.

“A nossa luta é para abrir o mercado nacional. É para colocar dentro do Brasil fabricantes internacionais que querem ir para lá mas não conseguem devido ao lobby e, principalmente, problemas políticos dentro do Ministério da Defesa”, crítica.

“O Brasil está rechaçando (empresas estrangeiras) em nome de quê? Uma burra reserva de mercado que só tem matado, não só os nossos policiais, mas também os cidadãos, com disparos acidentais”, disse ainda.

Em dezembro, a Justiça Militar paulista arquivou investigação contra um policial pela morte do entregador de pizza David Soares de Freitas, 20 anos, em junho, depois de concluir que a arma Taurus disparou sozinha quando o soldado caiu acidentalmente durante a abordagem policial.

Problemas com a Justiça

Por defeitos em suas armas, a Taurus responde a processos no Brasil e no exterior. No início do mês, a companhia aceitou um acordo preliminar para encerrar um processo nos Estados Unidos movido por duas famílias que pode chegar a US$ 7,9 milhões (quase R$ 30 milhões) – valor que abarca custos processuais e indenizações. Em ambos os casos, armas da companhia dispararam ao cair no chão e feriram pessoas na perna mesmo estando com a trava de segurança acionada.

No Brasil, após a Polícia Civil de Sergipe registrar falhas em pistolas da Taurus – uma deformação no ferrolho que travava o equipamento -, o Ministério Público Federal no Estado foi à Justiça em novembro de 2017 pedir “a quebra do monopólio e retirada de obstáculos à importação de armamento e munições no Brasil”.

A ação civil pública demanda também “que dez modelos de armas produzidos pela empresa sejam recolhidos para reparo, substituição ou indenização pelo valor pago, a critério do consumidor”. O caso ainda está em tramitação.

Após consulta da procuradora responsável pelo caso, Lívia Tinôco, a secretarias de Segurança Pública dos 26 Estados do país e do Distrito Federal, 19 responderam já ter tido problemas com armas da Taurus.